'Porão da Ditadura' em Teresina passa por primeira análise em arqueologia forense; entenda
30/04/2026
(Foto: Reprodução) Pesquisadores da UFPI identificam evidências arqueológicas em "Porão da Ditadura” em Teresina
Laboratório de Osteoarqueologia - UFPI
Pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI) identificaram evidências arqueológicas no espaço conhecido como “Porão da Ditadura”, na Central de Artesanato Mestre Dezinho, no Centro de Teresina. O levantamento técnico foi realizado neste mês de abril.
Segundo a equipe, esta é a primeira vez que o local passa por uma análise sob a ótica da arqueologia forense.
✅ Siga o canal do g1 Piauí no WhatsApp
A investigação se concentrou em um cômodo subterrâneo do imóvel, acessado por um alçapão. Segundo a bioarqueóloga Cláudia Cunha, que coordena o grupo, o próximo passo será a coleta de amostras para verificar a origem de manchas encontradas no local, que podem ser de sangue.
"Esta é a primeira vez que o porão é analisado na ótica da Arqueologia Forense. Ainda vamos coletar essas amostras pois estamos esperando a chegada dos kits de coleta", explicou a professora Cláudia.
Vídeos em alta no g1
As manchas foram identificadas com o uso de luz ultravioleta, já que não são visíveis a olho nu.
Segundo a equipe, o cenário levanta a hipótese de que elas possam ser vestígios de sangue ligados a episódios de violência relatados em estudos históricos e em depoimentos de presos durante a ditadura militar.
Análise técnica do espaço
A professora Cláudia Cunha afirmou que o estudo reuniu análises arquitetônicas, arqueológicas e bioarqueológicas para compreender a estrutura e o possível uso do local ao longo do tempo.
A pesquisa indicou que o cômodo possui características compatíveis com construções institucionais brasileiras entre as décadas de 1940 e 1970. Entre os elementos identificados estão granilite nas escadas, marmorite nas paredes e ladrilho hidráulico no piso.
Pesquisadores da UFPI identificam evidências arqueológicas em "Porão da Ditadura” em Teresina
Laboratório de Osteoarqueologia - UFPI
A equipe também alertou para o risco de descaracterização do espaço. “Atualmente, o espaço encontra-se ameaçado de destruição por projetos de reforma arquitetônica do local", disse a pesquisadora.
"Diante da relevância histórica e potencial valor probatório do local, a equipe técnica recomenda a preservação do espaço até a realização de estudos mais detalhados no âmbito da Arqueologia Forense e da Arqueologia Histórica”, completou.
Histórico do prédio
O edifício onde funciona a Central de Artesanato Mestre Dezinho tem uma longa trajetória histórica. A construção ocorreu entre 1844 e 1852, durante a transferência da capital do Piauí de Oeiras para Teresina.
No século XIX, o local abrigou o Estabelecimento de Educandos Artífices do Piauí. Em seguida, passou a sediar o Quartel do Comando Geral da Polícia Militar, função que exerceu por mais de 100 anos.
Durante a ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985, o prédio foi usado como espaço de detenção política. Registros históricos e relatos de vítimas indicam que o local também foi cenário de repressão e tortura.
VÍDEOS: assista aos vídeos mais vistos da Rede Clube